#104 - Player-coach
Porque algumas das melhores lideranças são aquelas que ainda entram em campo.

Romário viveu um dia histórico ao ser treinador e jogador do Vasco no mesmo dia, em 2007. Ele entrou em campo e também decidiu a escalação. Mesmo acontecendo no Vasco, que é sinônimo de bagunça, sempre lembro dessa história e penso o quanto esse acontecimento tem de falta de organização ou de um modelo de liderança de alguém que conhecia muito bem o que fazer dentro de campo.
Não estou dizendo que os treinadores devem entrar em campo para resolver os problemas do time. Também não acho que o Romário seria um grande treinador. Mas será que é possível ser um bom treinador sem conhecer profundamente a parte técnica do jogo?
O que é um player-coach?
Player-coach é um modelo de gestão onde o contribuidor individual também atua como líder de um time.
O conceito surgiu nas lideranças de times esportivos. No início dos esportes profissionais como conhecemos hoje, quem organizava o time era quem tinha mais conhecimento técnico dentro de campo. O que não parece estranho quando olhamos para áreas técnicas como design, produto e engenharia. É sempre um grande problema liderar algumas dessas atividades sem conhecimento técnico.
O tempo dividido entre o chapéu de contribuidor individual e o de líder é um dos problemas comuns de uma pessoa que atua como player-coach. É preciso muito cuidado e organização para não cair na armadilha do microgerenciamento ou correr o risco de deixar a qualidade de lado.
Também existe o desafio quando a empresa precisa escalar seus produtos e serviços, com a necessidade de aumentar o time para tocar várias iniciativas ao mesmo tempo.
A pessoa que atua como player-coach enfrenta alguns desafios por causa dessa atuação dividida. Fica entre se aproximar do produto para cuidar de cada detalhe ou deixar para trás o desenvolvimento do time e a visão de longo prazo.
Porém, os benefícios são grandes. A pessoa passa a atuar mais próxima da realidade e consegue construir credibilidade com seus liderados. É a liderança pelo exemplo. Ela toma decisões mais rapidamente devido à proximidade com a realidade técnica.
Player-coach nos esportes e nos negócios
Alguns treinadores começam a treinar antes mesmo de se tornarem treinadores.
Guardiola já era um player-coach dentro de campo quando jogou no Barcelona nos anos 90. Era um atleta extremamente tático e organizador do time. Funcionava como uma espécie de técnico dentro de campo — talvez sob influência de Cruyff, que foi muito bem tanto como jogador quanto como treinador.
Steve Jobs foi uma espécie de player-coach, mesmo ocupando o cargo de CEO. Revisava cada detalhe do produto, discutia embalagem, o desenho das lojas e pensava na estratégia de lançamento dos produtos da Apple. Algo muito parecido com o que Brian Chesky faz atualmente no Airbnb.
Paralelo com carreiras de design e produto
No começo de carreira ou em empresas menores, líderes quase sempre atuam como player-coaches.
As pessoas fazem um pouco de tudo. Pensam na estratégia, revisam o trabalho e entram no detalhe quando necessário. Resolvem problemas sem se preocupar com cargos e hierarquias.
Uma vez conversei com Guilherme Neumann, primeiro head de design do Nubank, e ele se recordava com carinho de quando a empresa tinha poucos designers. Era possível contribuir com o design da empresa para além do aplicativo. Era um momento em que o time conseguia pensar no design do escritório e do cartão de crédito, por exemplo.
Quando olho para a minha carreira, tento recordar quando percebi que gostaria de atuar como um player-coach. Nem sabia que essa possibilidade existia. Fui descobrir esse modelo quando pesquisei algumas estruturas de carreira que existiam no mercado antes de tomar a decisão de sair da consultoria.
Deixei a Isobar em 2014, quando já liderava um time de 25 pessoas, para ser contribuidor individual na Huge. Na Huge, fui contribuidor individual e, depois de dois anos, voltei para uma cadeira de liderança, mas sempre colocando a mão na massa. Era uma característica da empresa.
Depois da Huge, fui para a Accenture, onde também vivi um modelo de player-coach, atuando na liderança técnica de projetos de design de produto. Mas chegou um momento em que eu não enxergava mais o futuro na Accenture e busquei outra oportunidade no mercado.
Na Avenue, onde estou trabalhando enquanto escrevo esta newsletter, cheguei em um momento em que precisei ser muito das duas coisas: líder de estrutura e, em grande parte do início, com 100% de mão na massa. O desafio era evoluir o produto, montar o time e pensar no futuro — tudo ao mesmo tempo.
Sempre fiz questão de estar perto da construção do produto, porque é isso que me deixa feliz, mesmo com outras responsabilidades que tenho. Acredito que uma liderança técnica deve conhecer profundamente o entregável e a qualidade que o define para conquistar o respeito natural do time.
Claro que algumas empresas pedem líderes que gerenciam. Outras precisam de líderes que constroem.
As coisas mudam ao longo da evolução da empresa. No início da minha trajetória na Avenue, fui mais líder e designer colocando a mão na massa. Hoje estou mais focado na operação de produto, design e visão sistêmica. Continuo sendo um pouco player-coach, só que agora com um escopo ainda mais amplo.
Quando funciona e deixa de funcionar o papel de player-coach?
O modelo de player-coach costuma funcionar bem em empresas menores e com menos camadas de liderança. Principalmente em lugares que demandam times mais técnicos, que entregam produtos complexos. Ou mesmo em contextos em que a experiência prática exige muita capacidade técnica.
O modelo deixa de funcionar principalmente quando a empresa cresce demais ou quando o líder se torna um gargalo para a operação. Tudo fica mais difícil quando tudo depende do líder para avançar.
Quando a empresa chega a esse ponto de complexidade, é hora de pensar em um modelo de líder mais puro ou em algo que foque mais na construção de um sistema que possa ser usado dentro da companhia.
Alguns líderes se perdem quando deixam de jogar e se tornam 100% treinadores. Talvez o desafio da liderança seja saber quando entrar em campo e quando ficar no banco, apenas orientando o time.
Respeito quem prefere ser 100% coach ou 100% contribuidor individual. Mas, olhando para a minha carreira, cheguei à conclusão de que queria um lugar onde me sentisse confortável com os dois.
Por isso, sempre sugiro tentar ser o líder que você quer ser, independentemente de o lugar oferecer oficialmente esse papel, se isso fizer sentido para o seu objetivo. O espaço será criado se o foco for gerar valor para o negócio.
Referências e notas
O que estou lendo, ouvindo, assistindo e observando por aí.
Designing for player-coach leadership
O texto serviu de inspiração para a news desta semana. Sempre me enxerguei em um lugar de equilíbrio entre o chapéu de contribuidor individual e o de líder de times de UX. Neste artigo, é possível entender onde nasce o conceito de player-coach e em quais contextos funciona melhor.
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